“Desescrever-se”

By Arthur

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Seis dias atrás ele acordou e percebeu que estava fadado ao desgosto eterno. Como péssimo escritor que era já tinha estabelecido que não havia saída pro dilema e que portanto não havia mais razão para tentar.  Já era seu 10º ano na cidade após ter saído de uma próspera cidadezinha no interior pra estudar e tentar fazer alguma carreira qualquer como ‘homem de letras’. Descobriu cedo, no 2º ano da faculdade que estava completamente defasado em relação aos seus colegas, todos estudantes interessantes e espertos saídos de ricas escolas paulistanas e que de fato, ‘pensavam e respiravam’ literatura, como eles mesmo gostavam de dizer, ou melhor esfregar, cantar e debater diante de seu infame e atarracado ser.

Três dias atrás ele chegou à conclusão que não era mais capaz de viver. Após mais duas noites e dias na cama, mal dormidos, incapaz de fugir, ele decidiu que só seria capaz de mais uma coisa.

Se desescrever.

A situação é bastante comum em outras espécies de vício.

Os viciados entram em overdose, os bêbados destroem o fígado pouco a pouco ou numa orgia alcóolica ininterupta até que a última célula do corpo contaminado diga ‘chega’; os jogadores jogam o dinheiro, a tevê, a casa, a poupança da filha, a irmã, o cú do cachorro pra ver se ganham na última rodada – e perdem. Alguns pintores frustrados pintam sua última tela na parede do banheiro com gilete ou uma arma se a tiverem à mão.

Ele queria escrever.

E resolveu que aquele era seu jeito de acabar com tudo.

Era o primeiro dia. Ele sentou de frente pra mesa, um caderno na frente, e um lápis. Pensou que um computador ou uma máquina de escrever facilitariam, mas ele não tinha nenhuma das duas por perto.

Respirou fundo, pensou no que era relevante pra ele no momento, e começou a escrever.

Estava frustrado. Profundamente, como demonstrado. Então decidiu que a primeira coisa a fazer era livrar-se disso.

Então ele descreveu todo e qualquer possível sentimento de frustração que conseguisse. Sua carreira, sua vida, seu sexo, sua roupa mal-lavada, sua falta de dinheiro, sua falta de aptidão. Não nos demoraremos muito nisso, mas ele se demorou, foram algumas páginas gastas em tudo que merecia acabar como frustração.

E ele deixou isso pra trás. Uma coisa já foi, falta o resto, ele pensou.

Tenha em mente, não estou falando de terapia, mas de aniquilação. Sua intenção longe de ser de uma possível melhora, ou de encarar essa parte de sua personalidade, era a de desfazê-la.

Ele foi ao banheiro, sentou, pensou e decidiu que não havia mais como parar. Pausas interfeririam na sua capacidade de continuar o objetivo determinado.

Pensando no que já tinha escrito, nas coisas que faltavam ser escritas decidiu que havia emoções demais a serem destruídas, e que a frustração não bastava por si só. E para cada uma de suas frustrações ele achou uma razão emocional e as desescreveu.

‘Você não amou, você não foi bem sucedido, você não quis, você não tentou, você não odiou, você não teve amigos.’ Ad infinitum.

E despiu tudo que relevava à sua frustração e suas faltas de significado.

Logo após vieram os significados, obviamente. Essas eram as coisas em que ele aparentemente tinha feito as coisas certas: ser um bom filho, irmão, cristão (ele se demorou na parte em que falou sobre a cristandade, havia uma ou duas coisas para serem eliminadas juntamente) cético, amante, moralista, racista, humanista e istas e istas, além e adiante.

Vida social.

Ele se demorou, pensou nos outros, e um a um, apagou-os da memória, os aforismos a respeito da futilidade de tudo aumentando e aumentando na página.

 

Pensou em pessoas entrando na sua casa após uma semana e vendo um esqueleto morto com o lápis na mão. E riu, e desescreveu sua risada.

 

No segundo dia desde o começo da sua empreitada, ele ainda rabiscava furiosamente.

Decidiu que era a hora de se livrar de suas convicções mais básicas. Fome, dor, frio, sono.

 

Espaço, tempo, ele desescreveu tudo isso. O chão, a percepção estrutural do que era estar presente. O tempo não existia mais, sua mão, em carne viva, sua mente se apagando e após um tempo não existia mais nenhum destes.

 

Desescreveu sua linguagem então, percebendo que entrava em termos que não era mais capaz de quantificar ou de maneira hábil descrever.

 

No quinto dia (maneira de falar, já não existiam mais dias), desescreveu todas as teorias que explicavam o além da carne. Crendices que nem sabia porque existiam, idéias de santos, deuses, mitos, totens animais, ciências, magias, coisas que sem um corpo não tinham mais razão de ser. Sem um corpo sua alma era livre dessas amarras.

 E desescreveu Deus, porque Deus era ele naquele momento.

 No sexto dia, tendo descriado a tudo, até a si mesmo, ele descansou no vazio completo. Completo, porque o próprio vazio tinha sido descriado no processo todo.

  E no sétimo dia…

 No sétimo dia, no vazio completo, ele se viu entediado.

 E mal escritor que era, resolveu escrever tudo de volta.

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Fiz um backup no meu PC velho e salvei esse.

Gosto bastante dele, embora tenha percebido uns novecentos erros de português ao relê-lo.

5 Respostas para ““Desescrever-se””

  1. ckoshikumo Disse:

    Cara. Belo texto. Entrei aqui para comentar o seu comentário, e me aparece uma coisa dessas. Bacana.

    E li a história do Astro Boy. Outra coisa bem foda.

  2. Raul Arthuso Disse:

    Muito bom, Arthur!
    Continue destilando sua boa escrita pra nóis.

  3. Paulo Disse:

    Caralho…

  4. Ludmila souza santos Disse:

    nao to nem ai

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