Deixando o pano de prato apoiado na torneira, o garçom anuncia.
“O cavalheiro no cômodo adjacente acabou de falecer.”
As pessoas fazem um ‘gasp’ natural.
Aliás, a maioria não faz.
Eles sabem quem morreu.
Era só um velho na mesa, a boca sangrando, um copo quebrado. Alguma doença incompreensivel tinha feito ele parar de respirar já fazia algum tempo.
De dois em dois, escorados, alguns mudam de sala, pra observar.
- Porra, era um cara legal
- Ele me devia 150 contos.
- Isso é hora?
- Quando é hora então? Não é como se ele fosse pagar.
Uma mulher deixou uma vela. Dois homens deixaram um bilhete e sairam em silêncio.
Cinco mulheres – uma para cada dia útil – passaram pela porta, olharam, e conscientes da presença das outras – que as delatava – deixaram a sala uma a uma.
Compartilhavam pelo menos umas 2 ou 3 horas de algo bem interessante, molhado e súbito.
Com aquele filho da puta.
Aquele cuzão.
Três horas depois, após o cortejo todo, a cerimonia e o caralho, o cadáver ainda estava lá. Prestes a sair.
Apoiado na mesa. E se tivesse tido forças, certamente estaria mandando a audiência se ferrar.
Não estava.
Era um bar, nao uma funeraria.
O máximo que se faz nesse caso é deixar a carga na rua.
Quem não consegue andar fica na calçada.
E de manhã vem o lixeiro.
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Ontem a noite, nem sei de onde saiu esse.