Velório (Fairest of the seasons)

By Arthur

Deixando o pano de prato apoiado na torneira, o garçom anuncia.

“O cavalheiro no cômodo adjacente acabou de falecer.”

As pessoas fazem um ‘gasp’ natural.

Aliás, a maioria não faz.

Eles sabem quem morreu.
Era só um velho na mesa, a boca sangrando, um copo quebrado. Alguma doença incompreensivel tinha feito ele parar de respirar já fazia algum tempo.

De dois em dois, escorados, alguns mudam de sala, pra observar.

- Porra, era um cara legal

- Ele me devia 150 contos.

- Isso é hora?

- Quando é hora então? Não é como se ele fosse pagar.

Uma mulher deixou uma vela. Dois homens deixaram um bilhete e sairam em silêncio.

Cinco mulheres – uma para cada dia útil – passaram pela porta, olharam, e conscientes da presença das outras – que as delatava – deixaram a sala uma a uma.

Compartilhavam pelo menos umas 2 ou 3 horas de algo bem interessante, molhado e súbito.

Com aquele filho da puta.
Aquele cuzão.
Três horas depois, após o cortejo todo, a cerimonia e o caralho, o cadáver ainda estava lá. Prestes a sair.

Apoiado na mesa. E se tivesse tido forças, certamente estaria mandando a audiência se ferrar.
Não estava.

Era um bar, nao uma funeraria.
O máximo que se faz nesse caso é deixar a carga na rua.

Quem não consegue andar fica na calçada.

E de manhã vem o lixeiro.

—-

Ontem a noite, nem sei de onde saiu esse.

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